„Fricção e inundação“ na China

Encontrei a Bárbara e ela explicou-me tintim por tintim como é que funciona a censura na China. Não sei quê, que tinha lido num livrinho de uma professora americana muito inteligente. Pelos „jornais do Ocidente“ a Bárbara sabia que havia censura na China, o que não sabia é como ela funcionava. „Como? Com fricção e inundação, as principais técnicas modernas de censura da China.“

Corei, fiquei um bocado atrapalhado, tossiquei para disfarçar o meu embaraço. Recomposto, repeti tímida e pausadamente …„com fricção e inundação“!… e, nem sei bem como, lá fui arranjando audácia, não sem malícia, para lhe dizer que essas eram „as principais técnicas modernas“ nas produções baratas americanas de filmes pornográficos.

„A ilusão criada pela fricção e inundação pode enganar milhões de chineses. Mas não engana todos os chineses.“ Que verdade, Bárbara! Até à próxima.

Permitam-me uma jocosidade

Plácido Domingo, o grande tenor, apanhou o Covid e foi internado. Sei que as meninas severas do „Me Too“ me vão tentar apedrejar. Seja! Nesta hora difícil o grande Plácido precisa de conforto e ânimo. Não haverá uma enfermeira generosa, uma dessas mais rapioqueiras, com certos encantos físicos mais brejeiros, que… como se diz uma coisa destas… sei lá!, se ponha assim como que a jeito?

O Vírus Impresso e Expresso

Com tanta ajuda chinesa, russa e cubana à Europa dos direitos humanos, corremos o sério risco de nos esquecermos que gente é essa e que manhas usa para subverter o funcionamento exemplar dos nossos magníficos Serviços de Saúde. Olho neles, vírus para trás ou vida para a frente, as indústrias de armamento é que não podem ser desfalcadas, as bases militares americanas abandonadas, as divisões da NATO desmobilizadas.

Chineses, russos e cubanos, aprendemos e aprendemos bem, sempre foram uma ameaça para a liberdade de deixar morrer quem o queira fazer. Obrigado ao Expresso pela sua tão oportuna Revista. Uns toques de racismo no habitual preconceito sempre lhe ficou bem. Finalmente alguém que vê na ajuda de Xi JinPing o Tao do seu “sonho imperial” chinês. Que sirva de palavra de ordem para um mais sólido aprofundamento do nosso pesadelo financeiro.

Falo-vos do abandono

Se quero banalizar alguma coisa recorro à confusão. Destaco o abandono dos galgos do João Moura, repito até à saturação o abandono dos galgos do João Moura, volto à carga com o PAN que se preocupa com o abandono dos cães do João Moura, lembro mais uma vez que o PAN quer o fim das corridas de galgos por causa dos cães escanzelados do João Moura, mostro os galgos escanzelados e abandonados do João Moura, informo que o Parlamento se vai ocupar com os cães abandonados do João Moura.

Quando alguém ouvir a palavra abandono quero que só se lembre dos cães abandonados do João Moura. É uma boa maneira de não ter de falar de velhos ao abandono pelo parceiros do PAN no país do João Moura.

Basta-me a fragância subtil

Basta-me a fragância subtil que os nomes exalam. Condicionados os meus neurónios estremecem, acendem-se, brilham. A força da evocação. O reflexo de Pavlov. Nos meus ouvidos os nomes clássicos da língua de Platão e Aristóteles. Tremo. O murmúrio das palavras gregas traz em si uma erudição de séculos a que não resisto. A verdade, a força da verdade. Sucumbo.

Eutanásia, a morte boa, linda. Democracia, o poder do povo. Fragâncias subtis, suaves murmúrios. Sinto-me inebriado com a doçura terna das palavras sábias. Dois mil e quinhentos anos e nem um bocadinho ocas. Apenas os meus sonhos duros me assustam quando tudo baralham e me despertam. “O poder da morte linda para o povo”. Acabrunhado com o perfume das palavras, telefonei ao meu psiquiatra.

Todos os dias

Todos os dias são inseridas milhares de novas notícias na internet. Quem as coloca segue intenções, quem as lê segue hábitos. Por detrás de intenções há interesses, por detrás de hábitos necessidade e desejo de pertença, identificação e repetição. Muita repetição. Eu, com a liberdade intrínseca proveniente da consciência de saber quem sou na sociedade que tenho e quero, opto. Escolho informação, alimento espiritual, que aumente o meu discernimento, reforce a minha razão, faça recuar a besta que há dentro de mim.

Muitas vezes me ponho a pensar

Muitas vezes me ponho a pensar se o conhecimento, a sabedoria das coisas da vida, não é mais lindo que possuir muito dinheiro. Ouço um homem a falar convencido da força do seu dinheiro, só por esta movido, e uma imensa tristeza me invade. Pelo dinheiro a besta que há em cada um de nós é enaltecida, sente-se segura e livre. Já um homem com saber, com a calma e a perseverança que o conhecimento lhe incute, me dá alento e enche de alegria.

O espírito fora da garrafa

Desde que se começou a alardear o museu com o garfo e o guardanapo do Saudoso já se previa que a coisa não ficava por aqui. O espírito estava fora da garrafa. A Zefa que era uma entendida do caraças em bruxedos e obras do mafarrico veio logo com a história de que o espírito não podia andar por aí à solta. Prá garrafa não voltava, era preciso arranjar-lhe corpo, encarná-lo. „Empalhá-lo“, resbunava da mesa do fundo o Tono dos bonecos que tivera em tempos um teatro de marionetes.

A comissão de festas do museu, muito chegada às teias da salvação da pátria anichadas e cevadas nas têvês, nos jornais e nos sites das verdades da nação, apresentava listas e listas com tudo que era bicho-careta do plasma. Tinha que ser um plasmático dos lados dos futebóis, das telenovelas, dos telejornais. Um telegénico fala-barato, um vendedor de banha de cobra, um atiçador de baixos-instintos. „Um espírito com cinquenta anos de malfeitorias e quase outros tantos na rasteira e no offshore não se enxerta em qualquer corpo“, a Zefa torcia o nariz e, logo numa achega prenhe de ventura, „um driblista licenciado com barba de três dias seria ouro em azul, o resto seria trabalhinho de megafone para as teias anichadas nos tais orgãos da ordem dedicados à salvação da pátria“.

De Berlim, Paris e Roma sopravam bons ventos. Também lá as têvês se esfarrapavam pelos espíritos dos seus saudosos de antanho. Quanto mais anunciavam que os combatiam, mais eles cresciam. Uma orgia sinérgica, um verdadeiro ombro a ombro pelos novos salvadores de pátrias.

Não há mesmo extrema-direita em Portugal?

Como se ela fosse um gambozino! No espelho há quem se veja nitidamente como de esquerda, mas para a extrema-direita na sociedade portuguesa seja completamente pitosga. De onde virão essas ideias que o Observador põe a circular e que são adoptadas e amplificadas por muito boa gente do PSD, do CDS e mesmo do PS, acabando glosadas por jornalistas e comentadores nos auto-proclamados orgãos de referência?

O fascismo salazarista português tinha elementos demasiado arcaicos. Daí talvez as dificuldades da actual extrema-direita portuguesa em os decantar e deles fazer um programa novo e atractivo para o português moderno. Mesmo o fascismo internacional em marcha, produto do capitalismo de fachada neoliberal, também ainda não encontrou a sua forma acabada, pela qual, no fim de contas, se procurará orientar a extrema-direita nacional.

As manipulações e selecções políticas na comunicação social, a censura e auto-censura jornalística, a propaganda descarada da violência e da guerra, a diabolização de políticos internacionais, são ferramentas típicas da extrema-direita e do fascismo.

A afirmação de que não existe extrema-direita em Portugal é feita com grande facilidade. Pode ser resultado de grande ingenuidade. Ora, isto não impede que seja vista como uma imperdoável leviandade.