O espírito fora da garrafa

Desde que se começou a alardear o museu com o garfo e o guardanapo do Saudoso já se previa que a coisa não ficava por aqui. O espírito estava fora da garrafa. A Zefa que era uma entendida do caraças em bruxedos e obras do mafarrico veio logo com a história de que o espírito não podia andar por aí à solta. Prá garrafa não voltava, era preciso arranjar-lhe corpo, encarná-lo. „Empalhá-lo“, resbunava da mesa do fundo o Tono dos bonecos que tivera em tempos um teatro de marionetes.

A comissão de festas do museu, muito chegada às teias da salvação da pátria anichadas e cevadas nas têvês, nos jornais e nos sites das verdades da nação, apresentava listas e listas com tudo que era bicho-careta do plasma. Tinha que ser um plasmático dos lados dos futebóis, das telenovelas, dos telejornais. Um telegénico fala-barato, um vendedor de banha de cobra, um atiçador de baixos-instintos. „Um espírito com cinquenta anos de malfeitorias e quase outros tantos na rasteira e no offshore não se enxerta em qualquer corpo“, a Zefa torcia o nariz e, logo numa achega prenhe de ventura, „um driblista licenciado com barba de três dias seria ouro em azul, o resto seria trabalhinho de megafone para as teias anichadas nos tais orgãos da ordem dedicados à salvação da pátria“.

De Berlim, Paris e Roma sopravam bons ventos. Também lá as têvês se esfarrapavam pelos espíritos dos seus saudosos de antanho. Quanto mais anunciavam que os combatiam, mais eles cresciam. Uma orgia sinérgica, um verdadeiro ombro a ombro pelos novos salvadores de pátrias.

PSD: Combate de titãs

Forças da natureza em combate sísmico. Um Montenegro contra um Rio.

Tire-se o PSD do doce aconchego do poder, não faltam os títeres candidatos a titãs.

Não há mesmo extrema-direita em Portugal?

Como se ela fosse um gambozino! No espelho há quem se veja nitidamente como de esquerda, mas para a extrema-direita na sociedade portuguesa seja completamente pitosga. De onde virão essas ideias que o Observador põe a circular e que são adoptadas e amplificadas por muito boa gente do PSD, do CDS e mesmo do PS, acabando glosadas por jornalistas e comentadores nos auto-proclamados orgãos de referência?

O fascismo salazarista português tinha elementos demasiado arcaicos. Daí talvez as dificuldades da actual extrema-direita portuguesa em os decantar e deles fazer um programa novo e atractivo para o português moderno. Mesmo o fascismo internacional em marcha, produto do capitalismo de fachada neoliberal, também ainda não encontrou a sua forma acabada, pela qual, no fim de contas, se procurará orientar a extrema-direita nacional.

As manipulações e selecções políticas na comunicação social, a censura e auto-censura jornalística, a propaganda descarada da violência e da guerra, a diabolização de políticos internacionais, são ferramentas típicas da extrema-direita e do fascismo.

A afirmação de que não existe extrema-direita em Portugal é feita com grande facilidade. Pode ser resultado de grande ingenuidade. Ora, isto não impede que seja vista como uma imperdoável leviandade.

As marcas que a espuma dos dias deixa

Espuma-quase dos dias

Marcas de espuma, de uma espuma muito especial, espuma do tempo. Espuma da vida, assim é que devia ser. Mesmo assim, vida também não diz muito sobre a espuma. Põe-nos quando muito a pensar no que seja. Teríamos de falar do que fazemos e voltamos a fazer, dizemos e voltamos a dizer, captamos pelos sentidos e voltamos a captar.

Desaparece a espuma e a sua marca lá fica. A marca que nos vai marcando, formando, in-formando, deformando. Marcados pelos nadas insignificantes do quotidiano, passem o paradoxo e o pleonasmo em toda a sua semântica. Marca-nos o que aceitamos e marca-nos o que recusamos. E o que aceitamos hoje é o sinal de uma marca antes aceite e o que recusamos hoje é sinal de uma contrariedade anterior. O puzzle das nossas ideias constrói-se com as marcas deixadas pela espuma dos dias da nossa vida vivida. E se hoje lhes chamamos cliques ou likes, pouco ficamos a saber sobre a forma e a qualidade da nova espuma. A marca que fica, do que fica, é que conta.

Das „pragas“ e os seus eucaliptos

 eucaliptos

Hoje é ponto assente que o eucalipto é uma “praga”. Mas pior que a „praga“ do eucalipto é a „praga“ do lobbyismo, a „praga“ do lucro sem pesar os danos, a „praga“ das privatizações, a „praga“ do Estado ao serviço de interesses particulares, a „praga“ do desleixo, a „praga“ da ignorância, a „praga“ do não-querer-saber, a „praga“ da cobardia.

A „praga“ do eucalipto coroa uma série infinda de „pragas“ que foram sendo paulatinamente instaladas durante dezenas e dezenas de anos na consciência da sociedade portuguesa.

E da „praga“ do eucalipto resulta a „praga“ dos incêndios, a „praga“ da degradação dos solos, a „praga“ da destruição e abandono da agricultura, a „praga“ do despovoamento de zonas cada vez mais vastas do território nacional, a „praga“ da entrega do litoral à especulação desbragada, a „praga“ do vigarismo e da hipocrisia dos políticos no poder, a „praga“ da corrupção, a „praga“ da submissão dos interesses do povo português a interesses de consórcios internacionais virados para o lucro fácil e rápido sem qualquer interesse num desenvolvimento sustentável.

 „Pragas“ que alimentam a „praga“ do eucalipto, de uma forma ou de outra redundam noutras „pragas“ ainda mais resistentes, numa espiral diabólica e numa dinâmica alucinante, deixando o português-trabalhador sem saber bem quem é, nem o que para si de facto conta.

No fim de contas não é só o eucalipto-árvore que se multiplica na mata mas também o eucalipto-homem que invade a sociedade portuguesa protagonizando a „praga“ do individualismo, a „praga“ do oportunismo mais sórdido, a „praga“ do sucesso venal. E são todas estas castas de eucaliptos que, ardendo com grande facilidade, estão a deixar toda uma sociedade enfarruscada.

O grande forrobodó

De uma penada futebol e Rússia. O grande forrobodó para o jornalismo português. Uma festança farta-brutos. O fútil de braço dado com a ignorância e o preconceito e, do majestoso coctail, doses industriais. Fina-se o pavio da arenga futebolística, avança-se pelos sólidos e sórdidos fios da calúnia, do preconceito e da ignorância política. Das habilidades pedíbolas de Ronaldo pula-se para as ideias malignas de Putin.

Os fanáticos das sanções estão apreensivos. Os promotores do ódio e da guerra estão a postos para espalhar o seu veneno e aproveitar o momento para qualquer provocação. Grande o medo da paz e da amizade entre os povos, pois onde elas reinam não se vendem armas.