Trump e o empresariês (ou coisa assim)

Trump é um empresário que fala empresariês, um cruzamento linguístico de gestão de empresas, vendas, marketing e publicidade, e  está agora na Casa Branca a enxertar na política os seus métodos business. Trump não é um político e faz questão que o mundo o saiba.

Ao dizer que Trump „não é um democrata, não é um liberal, não é um conservador, nem um fascista, nem um nacionalista, é um demagogo revolucionário, egocêntrico e autoritário, que só ouve a voz do seu próprio sucesso“, JPP está a caracterizar um político. Outra vez: Trump não é um político. Ora isso é que irrita no seu estilo e na sua linguagem. Trump será qualquer coisa como um atleta de luta livre numa equipa de futebol com o estádio cheio. O visitante esporádico e desinteressado de um desafio goza a cena, o fanático da bola desatina, rasga o cartão de sócio e quer o dinheiro do bilhete de volta.

Quando Carlos Slim se oferece para ajudar o governo mexicano a negociar com Trump significa que vai utilizar o empresariês, o código linguístico dos empresários, para chegar a um acordo.

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Nós e o grande „destrampelhamento“

O senhor Donald Trump é um destrampelhado. Mas é o líder do país que produz os conteúdos das consciências ditas e vendidas por ocidentais. Tratamos o que dá de si, até há pouco declarações, agora actos e factos, com o respeito e o acatamento de dedicados vassalos. Dito diplomaticamente, somos educados.

Selecta e selectivamente educados. Os nossos jornais com aquela informação que nos molda e ensina, querem que os levemos a sério, que vejamos no seu esforço de informação um acto respeitável, independente, limpo. O que lhes chega da capital do império é-nos transmitido com todas as deferências. Se há crítica a fazer será sempre feita no quadro tolerado da diferença de opinião. Com o senhor Donald Trump os nossos jornais não abandonam a etiqueta, são sempre sofisticados.

Mas só com o líder do país que manda nas nossas consciências. Porque o senhor Donald Trump com todo o seu destrampelhamento nunca chegará para a agressividade do senhor Vladimir Putin, o cabeça da dita e vendida ameaça russa. Perante uma ameaça de tal envergadura não precisam os nossos jornais de ser respeitáveis, independentes, limpos. Basta que deturpem e caluniem para serem levados a sério.

Falem-me do futuro, digam-me lá como vai ser!

Videntes de todas as esferas, contem-me o que vai vir! Na minha memória ainda o eco do anúncio da vitória da primeira mulher presidente dos EUA. A força do desejo foi tão forte, tão convicta, tão intensa que a objectividade sucumbiu, e Trump surgiu como surpresa negativa.

Que futuros vedes nas bolas de cristal oferecidas pelos magnates de todas as especulações, Soros e Bloomberg? Não terá Putin manipulado as meteorologias para termos este frio sibérico? Assustem-me, escandalizem-me, desenterrem-me monstros medievais para que eu entregue a minha vontade a um qualquer salvador providencial!

Agitem-me, sacudam-me, ponham-me fora de mim, e encham-me a consciência com as anomalias da vossa fantasia distorcida!

Não funciona a democracia? Mude-se o povo

Ninguém se atreveria a duvidar que os EUA têm a melhor e mais avançada democracia do mundo. O que não admira, é o país com:

– os bancos mais poderosos do mundo,

– os paraísos fiscais mais seguros do mundo,

– as elites financeiras mais cúpidas do mundo,

– o exército mais eficiente do mundo,

– os maiores produtores e exportadores de armamento do mundo,

– os melhores e mais numerosos serviços secretos do mundo,

– os maiores criminosos e as cadeias mais cheias do mundo,

– os melhores filmes e as estrelas mais famosas do mundo,

– as melhores cadeias de televisão com os melhores programas do mundo,

– o jornalismo mais referenciado do mundo,

– o maior número de medalhas olímpicas do mundo,

– o maior número de bases militares instaladas pelo mundo,

– os melhores, mais ilustres e mais conhecidos políticos do mundo…

… até que Donald Trump surgiu, foi eleito e o mundo ficou muito desiludido.

Como pode o país das supremas qualidades, o farol da democracia, da liberdade, do dinheiro, das armas, da espionagem e da guerra, da televisão e do crime real, virtual e fictivo, do cinema e do jornalismo, do divertimento e dos drones, do povo eleito por Deus, inspirado por milhares de gurus comerciais e por centenas de religiões infalíveis, ter escolhido Donald Trump para o representar?

Os melhores do mundo avançaram com as suas convictas explicações: Putin, redes sociais, fake-news, populismo, pós-verdade. Contra tudo e todos está hoje o establishment ocidental, agora comandado pela única estrela que resta no firmamento neocon, a sra. Merkel apoiada pelo sr. Schäuble. Bem, podem contar a NATO,  a agressão „obsoleta“.

Apuradas as culpas e os culpados por certo irão mudar o povo, pois só por sua culpa não funcionou a tão perfeita democracia americana.

Quando a verdade surge como hipótese

Quando uma notícia abre com „a ser verdade que…“ o leitor tem de arregaçar as mangas e preparar-se para o que der e vier. É tudo possível menos a verdade que, mencionada na abertura, é imediatamente atropelada, esmagada e arrumada para não incomodar mais. Livre da verdade, a narrativa avança de acordo com o estado de espírito e a fantasia do autor. Acha-se ele um perito em Putin? Então temos mitologia, lendas, histórias fantásticas de espionagem, escritas para impressionar os grandiosos 007 à solta pela nossa província.

Fusões

Nos tempos da velha senhora, o jornalista escrevia e o censor proibia.

Nos tempos da nova senhora, o jornalista censura-se.

Nos tempos da velha senhora, o jornalista servia o leitor e o censor a senhora.

Nos tempos da nova senhora o jornalista serve a publicidade ao serviço da senhora.

A concentração que leva à fusão põe o leitor a apanhar bonés.