Quem tem treta da nossa é dos nossos

Para quem sabe quem é e o que quer, ainda não percebi muito bem o que lhe pode interessar a lengalenga dos políticos. Num mundo em que há cem mil jornais a escrever o mesmo, sobre os mesmos cem mil acontecimentos das últimas horas, burro é o político que não deita faladura para se manter na crista da espuma, que é como quem diz, nas bocas do mundo.

Em terra de treta quem faz alguma coisa é rei. Mas a treta ainda é o que melhor se vende porque o feito está feito, já não há remédio. Quando Assunção Cristas quer resolver a praga dos incêndios com rezas e velas a santos e divindades, sabemos que só da Cristas podem vir soluções tão eficientes. Se Passos Coelho diz do Governo cobras e lagartos e anuncia o Diabo para Setembro, esperamos que saiba estar à altura do hóspede. Costa, como chefe do Executivo, tem de fazer alguma coisa, mas sem treta os media também não dão por ele.

Em treta quem vende melhor é a Catarina. Jovem, simpática, fotogénica, dotada da informalidade dos desabafos da mesa de café, abre-se com a segurança de quem sabe que não tem importância o que diz. Os jornais gostam, escancaram as suas bojardas macias, alimentam a treta que tão bem nos faz, e lá continuamos todos no ponto onde sempre estivemos e nunca saímos.

O arrependimento da Catarina correu como um rastilho de pólvora seca que desagua numa poça de água. A imagem da Catarina arrependida faz-nos bem cá por dentro porque o arrependimento tem a ver com a nossa mitologia de eternos pecadores. E quem se confessa assim em público não pode ser má pessoa. É dos nossos.

Quando o perfil de um problema é útil para o agravar

Leio que o perfil do pirómano florestal português foi definido. A informação, que de certo modo é dada com o fito de tranquilizar, transforma-se, por isso mesmo, numa fonte de inquietação.

Pouco há em Portugal que não tenha já um perfil. Até da passividade activa e da conivência intencional do Estado, das autarquias e das autoridades há já um perfil. É aqui que está o busílis. Conhecendo-se os problemas e sabendo-se quais as medidas a tomar, então também já se pode mexer todos os cordelinhos, fazer-se todos os esforços para que tudo fique na mesma. Esta é a grande vantagem do conhecimento do perfil dos problemas: Os governos e as autarquias podem hierarquizar as prioridades do que nunca será feito.

Em Portugal só se avança com projectos que sirvam para travar o desenvolvimento. O que se faz é bom pelo simples facto de se prestar à sabotagem. Depois de cada incêndio é feito um reflorestamento com árvores que ardam melhor que as anteriores. Quando não se conhece os donos de muitas propriedades, entrega-se estas à gestão das autarquias, para que elas procurem ou inventem um proprietário. Quando um Estado não confisca porque duvida das suas capacidades de gestão, então a sua função é simplesmente servir interesses contrários aos dos cidadãos.

Adele, a grande Adele!

Futebol americano?!!! Super Bowl?!!! Adele é uma cantora e das minhas. Fez-lhes um manguito. Lindo, que só visto! Eles agora a torcerem-se com as formalidades. Se já gostava da tua voz e da tua música, agora gosto do teu carácter, grande mulher!

E se em cada incendiário está adormecido um grande plantador de árvores?

Estou convencido que os psicopatas que andam por aí durante a noite a atear incêndios dariam excelentes plantadores de árvores.

Meter um psicopata sem mais nem quê, por mais normal e acessível que ele pareça, no chilindró não resolve nada. Mandá-lo para casa ainda resolve menos. Fazer dele um herói negativo, um aventureiro antissocial, é coisa que nem sequer ao diabo ocorre, a não ser que este seja pobre e se meta pelos infernos do jornalismo.

O relacionamento da sociedade portuguesa com a sua natureza exterior é altamente deficitário. Com a interior não é melhor. Em ambos os casos já foi pior. Não nos vemos nela, não a vemos em nós. Os solos, a água, as plantas, os outros animais, não precisam de nós para nada. Sem nós a natureza passaria muito melhor, mas no dia em que descobrirmos que estamos nela e que lhe pertencemos, nesse dia descobrimo-nos e damos o primeiro passo no respeito por nós. Esta é a estaca-zero da nossa auto-estima. Nesse dia vai ganhar a natureza, a sociedade, vai ganhar cada um de nós.

Um psicopata tem antes de mais um problema consigo próprio. Ele vê-o nos outros, mas aquilo que ele vê nos outros, não o identifica, ou recusa-se a reconhecê-lo, como seu. O psicopata é um homem dilacerado, dividido, rasgado intimamente e os outros membros da sociedade que lhe estão próximos e que com ele convivem, na forma como reflectem o seu desespero e conflito interno, pode acender ainda mais a contradição. Ele procura fugir desse conflito pela porta do fundo, pela vingança, pelo crime. Que não faça a sociedade aqui o jogo de Pilatos, a porta do fundo foi a única porta que o perturbado viu mais próxima e que, como que de propósito, a sociedade lhe deixou entreaberta.

Um psicopata precisa de ajuda e a ajuda que lhe dermos, ajuda-nos. Prevenimos o crime quando estendemos a mão, nos interessamos e ouvimos o que ele nos quer dizer, muitas vezes numa metalinguagem sua, muito pessoal. Os demónios podem ter muitos defeitos, mas sempre tiveram a gentileza de nos avisar com a devida antecedência para os seus actos. O descuido é nosso por não lhes darmos atenção.

Corrigimos o crime quando estendemos a mão, nos interessamos pelas capacidades do psicopata e lhe damos uma chance. Um incendiário de matas e florestas é um homem que tem uma relacionamento muito especial com a natureza, só que negativa, de sinal contrário, virado para a destruição. Para corrigir esse relacionamento, porque não fazer dele um bom plantador de árvores?

A Prevenção que há-de cair do céu

A formatação religiosa da nossa consciência leva-nos a acreditar na acção milagrosa das palavras. Rezamos, fazemos uma prece, utilizamos uma palavra na qual vemos um poder misterioso qualquer, um mantra, e pronto, já está!, a realidade começa a deslocar-se. Para o bem, no nosso interesse, claro. Não se nota nada? Bem, então não houve fervor, convicção, intensidade suficiente.

Um desses poderosíssimos mantras é prevenção. Temos uma sabedoria longínqua da vida. Como qualquer ser vivo estamos dotados de mecanismos biológicos de sobrevivência que nos informam de perigos, nos dizem na sua linguagem íntima e particular para termos cuidado. A experiência da vida e a razão reforçam ainda mais esses mecanismos e sugerem a prevenção. E até prevenimos, mas só na eminência do perigo, já a ameaça está em marcha. Fugimos, esquivamo-nos, passamos de largo, salvamos o que podemos dentro do tempo curto e do espaço limitado que temos.

A prevenção de longo prazo, de vasto alcance, com efeitos fundos num futuro mais ou menos longínquo, exige conhecimento. Exige o estudo dos movimentos da natureza e da sociedade, das suas forças intrínsecas. Temos de mergulhar no passado, ver a sua evolução até ao presente e tentar descobrir as suas linhas de desenvolvimento futuro. Prevenir é tomar medidas prácticas, intervir, modificar, corrigir erros passados. Prevenir é agir contra forças da natureza, canalizando-as e, se possível, aproveitando-as. Prevenir é agir contra forças sociais que tiram proveito de que tudo continue ao deus-dará. Prevenir é planear contando com a sua resistência, a sua ofensiva, a sua sabotagem.

Mas prevenir é em Portugal acima de tudo falar. Talvez mostrar boas intenções. Talvez enunciar propósitos. Prevenção é palavra mágica, mantra, que ponha em marcha forças telúricas e espíritos benignos, anjos da guarda que saibam onde estamos quando precisarmos deles. para alguma coisa devem servir os santinhos e a água benta a que nos agarramos enquanto murmuramos cem mil vezes prevenção, esperando que ela caia do céu.