Não há mesmo extrema-direita em Portugal?

Como se ela fosse um gambozino! No espelho há quem se veja nitidamente como de esquerda, mas para a extrema-direita na sociedade portuguesa seja completamente pitosga. De onde virão essas ideias que o Observador põe a circular e que são adoptadas e amplificadas por muito boa gente do PSD, do CDS e mesmo do PS, acabando glosadas por jornalistas e comentadores nos auto-proclamados orgãos de referência?

O fascismo salazarista português tinha elementos demasiado arcaicos. Daí talvez as dificuldades da actual extrema-direita portuguesa em os decantar e deles fazer um programa novo e atractivo para o português moderno. Mesmo o fascismo internacional em marcha, produto do capitalismo de fachada neoliberal, também ainda não encontrou a sua forma acabada, pela qual, no fim de contas, se procurará orientar a extrema-direita nacional.

As manipulações e selecções políticas na comunicação social, a censura e auto-censura jornalística, a propaganda descarada da violência e da guerra, a diabolização de políticos internacionais, são ferramentas típicas da extrema-direita e do fascismo.

A afirmação de que não existe extrema-direita em Portugal é feita com grande facilidade. Pode ser resultado de grande ingenuidade. Ora, isto não impede que seja vista como uma imperdoável leviandade.

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Já me estão outra vez a atirar areia para os olhos!

Tema: “grandes violências”

Vamos lá, toca a discutir o caso #MeToo em força e com todos os condimentos! Mas fechem a porta que os bancos, os consórcios e os investidores estão a contar os lucros.

Das „pragas“ e os seus eucaliptos

 eucaliptos

Hoje é ponto assente que o eucalipto é uma “praga”. Mas pior que a „praga“ do eucalipto é a „praga“ do lobbyismo, a „praga“ do lucro sem pesar os danos, a „praga“ das privatizações, a „praga“ do Estado ao serviço de interesses particulares, a „praga“ do desleixo, a „praga“ da ignorância, a „praga“ do não-querer-saber, a „praga“ da cobardia.

A „praga“ do eucalipto coroa uma série infinda de „pragas“ que foram sendo paulatinamente instaladas durante dezenas e dezenas de anos na consciência da sociedade portuguesa.

E da „praga“ do eucalipto resulta a „praga“ dos incêndios, a „praga“ da degradação dos solos, a „praga“ da destruição e abandono da agricultura, a „praga“ do despovoamento de zonas cada vez mais vastas do território nacional, a „praga“ da entrega do litoral à especulação desbragada, a „praga“ do vigarismo e da hipocrisia dos políticos no poder, a „praga“ da corrupção, a „praga“ da submissão dos interesses do povo português a interesses de consórcios internacionais virados para o lucro fácil e rápido sem qualquer interesse num desenvolvimento sustentável.

 „Pragas“ que alimentam a „praga“ do eucalipto, de uma forma ou de outra redundam noutras „pragas“ ainda mais resistentes, numa espiral diabólica e numa dinâmica alucinante, deixando o português-trabalhador sem saber bem quem é, nem o que para si de facto conta.

No fim de contas não é só o eucalipto-árvore que se multiplica na mata mas também o eucalipto-homem que invade a sociedade portuguesa protagonizando a „praga“ do individualismo, a „praga“ do oportunismo mais sórdido, a „praga“ do sucesso venal. E são todas estas castas de eucaliptos que, ardendo com grande facilidade, estão a deixar toda uma sociedade enfarruscada.

Até que enfim, futebol!

Os energúmenos de Alcochete, o Bruno, a imprensa com informação de grande qualidade e utilidade até chegar c’o dedo. O Sporting assunto de Estado. Finalmente um assunto sério para pôr a cabeça dos políticos em água e fazer esquecer essas ninharias de precários, salários ignóbeis, bancos falidos, gestores e ministros corruptos, incêndios, eucaliptos, interior deserto. Finalmente um assunto que os portugueses conhecem como a palma da sua mão e do qual podem falar com a autoridade de sumidades na matéria. A imprensa informa tintim por tintim, o Bruno em sílaba e em pisca-olho, atletas de cabeça rachada, a caça aos terroristas dos balneários, o Marcelo em busca do melhor afecto, beijo ou palavrinha doce?, o espectador de lágrima no canto do olho, „não se faz uma coisa dessas“, o Bruno anjo vingador não se demite, „não se faz uma coisas dessas“, temos futebol ou circo? „não se faz uma coisa dessas“!

„As pessoas não querem trabalhar“

O que se apropria do excedente do trabalho alheio é difícil de saciar. Quem para ele trabalha, por muito que faça, é sempre pouco. Ou pura e simplesmente é acusado de não querer trabalhar. A acusação ecoa ao longo de toda a História da humanidade. Os escravos construtores das pirâmides egípcias eram chicoteados por não quererem trabalhar. Os senhores das terras e dos palácios na antiga Grécia e na velha Roma maltratavam e matavam os seus escravos porque estes, do seu ponto de vista, não queriam trabalhar. Os negreiros portugueses, negociantes em mão-de-obra africana para as plantações no Brasil, matavam e esfolavam só de imaginar que o escravo podia não querer trabalhar. O empresário de hoje continua a afirmar a pé juntos que o criador da sua riqueza não quer trabalhar.

Atendendo às condições dominantes, o escravo bem terá as suas boas razões para não querer trabalhar. Mas que humana, nobre e sublime razão invocará o negreiro para o expropriar?