Arde muito mas o rastilho não pega

Isabel Monteiro faliu mais uma vez;

O PSD resigna-se com os 64 mortos;

Na caça ao governo,  o talli-ho das televisões e dos jornais  fica mais uma vez em águas de bacalhau. 

A Venezuela na Europa – mais uma vez adiada.

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Incêndios: Malhar é enquanto o ferro está quente

Lembra José Pacheco Pereira:

lobbies poderosos na área dos incêndios, dos madeireiros às grandes empresas de celulose, aos bombeiros e toda a panóplia de negócios à volta do fogo, uma das áreas em que se conhecem casos concretos de corrupção, nepotismo e tráfico de influências. Não são segredo para ninguém.

Mas este aspecto citado num site alemão é ainda mais flagrante:

 „Em 2014,  sob o governo conservador, o empobrecido país do sul da Europa (Portugal, n.t.), que só conseguiu disponibilizar para o combate aos incêndios 70 milhões de euros e mais 20 milhões para a sua prevenção – tem um orçamento militar de 2,1 mil milhões de euros.“

Quando o perfil de um problema é útil para o agravar

Leio que o perfil do pirómano florestal português foi definido. A informação, que de certo modo é dada com o fito de tranquilizar, transforma-se, por isso mesmo, numa fonte de inquietação.

Pouco há em Portugal que não tenha já um perfil. Até da passividade activa e da conivência intencional do Estado, das autarquias e das autoridades há já um perfil. É aqui que está o busílis. Conhecendo-se os problemas e sabendo-se quais as medidas a tomar, então também já se pode mexer todos os cordelinhos, fazer-se todos os esforços para que tudo fique na mesma. Esta é a grande vantagem do conhecimento do perfil dos problemas: Os governos e as autarquias podem hierarquizar as prioridades do que nunca será feito.

Em Portugal só se avança com projectos que sirvam para travar o desenvolvimento. O que se faz é bom pelo simples facto de se prestar à sabotagem. Depois de cada incêndio é feito um reflorestamento com árvores que ardam melhor que as anteriores. Quando não se conhece os donos de muitas propriedades, entrega-se estas à gestão das autarquias, para que elas procurem ou inventem um proprietário. Quando um Estado não confisca porque duvida das suas capacidades de gestão, então a sua função é simplesmente servir interesses contrários aos dos cidadãos.

E se em cada incendiário está adormecido um grande plantador de árvores?

Estou convencido que os psicopatas que andam por aí durante a noite a atear incêndios dariam excelentes plantadores de árvores.

Meter um psicopata sem mais nem quê, por mais normal e acessível que ele pareça, no chilindró não resolve nada. Mandá-lo para casa ainda resolve menos. Fazer dele um herói negativo, um aventureiro antissocial, é coisa que nem sequer ao diabo ocorre, a não ser que este seja pobre e se meta pelos infernos do jornalismo.

O relacionamento da sociedade portuguesa com a sua natureza exterior é altamente deficitário. Com a interior não é melhor. Em ambos os casos já foi pior. Não nos vemos nela, não a vemos em nós. Os solos, a água, as plantas, os outros animais, não precisam de nós para nada. Sem nós a natureza passaria muito melhor, mas no dia em que descobrirmos que estamos nela e que lhe pertencemos, nesse dia descobrimo-nos e damos o primeiro passo no respeito por nós. Esta é a estaca-zero da nossa auto-estima. Nesse dia vai ganhar a natureza, a sociedade, vai ganhar cada um de nós.

Um psicopata tem antes de mais um problema consigo próprio. Ele vê-o nos outros, mas aquilo que ele vê nos outros, não o identifica, ou recusa-se a reconhecê-lo, como seu. O psicopata é um homem dilacerado, dividido, rasgado intimamente e os outros membros da sociedade que lhe estão próximos e que com ele convivem, na forma como reflectem o seu desespero e conflito interno, pode acender ainda mais a contradição. Ele procura fugir desse conflito pela porta do fundo, pela vingança, pelo crime. Que não faça a sociedade aqui o jogo de Pilatos, a porta do fundo foi a única porta que o perturbado viu mais próxima e que, como que de propósito, a sociedade lhe deixou entreaberta.

Um psicopata precisa de ajuda e a ajuda que lhe dermos, ajuda-nos. Prevenimos o crime quando estendemos a mão, nos interessamos e ouvimos o que ele nos quer dizer, muitas vezes numa metalinguagem sua, muito pessoal. Os demónios podem ter muitos defeitos, mas sempre tiveram a gentileza de nos avisar com a devida antecedência para os seus actos. O descuido é nosso por não lhes darmos atenção.

Corrigimos o crime quando estendemos a mão, nos interessamos pelas capacidades do psicopata e lhe damos uma chance. Um incendiário de matas e florestas é um homem que tem uma relacionamento muito especial com a natureza, só que negativa, de sinal contrário, virado para a destruição. Para corrigir esse relacionamento, porque não fazer dele um bom plantador de árvores?