Pouca inteligência? Tenta dar nas vistas!

Sean Spicer: „Nem Hitler desceu tão baixo ao ponto de usar armas químicas.“

O melhor contador de anedotas está hoje apto a governar os Estados Unidos!

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Bocage e o „assassino“

Bocage

Bocage

Naquele tempo a alta sociedade organizava grandes festas. Numa dessas festas famosas uma senhora muito conhecida e muito estimada, por ligeiro descuido, largou um traque. Ao ruído indiscreto, muitas pessoas se viraram. A senhora, muito vermelha, sorriu envergonhada e, afastando-se, foi procurar o célebre Bocage. Contou-lhe o desagradável descuido, o poeta prestou-se a ajudá-la. Subiu para uma cadeira, bateu duas, três palmas, pediu a generosa atenção aos presentes e declarou:

– Estimados senhoras e senhores, o peido que aquela senhora deu… não foi ela, fui eu.

Dois séculos depois, a grande Fox News dos gloriosos Estados Unidos, país cuja grandeza foi construída à custa da escravatura, destruição de culturas de muitos povos nativos, invasões de outros países soberanos, saque de recursos naturais de outros povos e assassínio sem escrúpulos de milhões de seres humanos por esse mundo fora, numa entrevista ao seu novo presidente, aponta o dedo ao presidente russo e apelida-o de „Killer“, assassino. Também a Fox News, representante da Great América, está a precisar do seu Bocage:

– Estimada comunidade mundial, dos meus milhões de crimes e assassínios não me culpem a mim… mas o senhor Putin.

Trump, depois do politicamente correcto e das fake-news

Depois do „politicamente correcto“ vieram as „fake-news“. A realidade, os factos e a vida permaneceram impassíveis, seguindo o seu caminho, indiferentes a jornalistas, especialistas e outros artistas ufanos da sua fantasia e da sua criatividade. 

Os milionários continuaram a acumular os seus milhões, os precários, os desempregados, os sem-abrigo continuaram a afundar-se no desespero.

A democracia adulterada, esfarrapada, mutilada é o último reduto para os desesperados fazerem ouvir a sua voz. Uma voz onde o politicamente correcto e as fake-news também estiveram presentes, confundindo, deturpando, enganando.

Trump foi eleito. Trump é o produto de um povo desesperado e maltratado, enganado e alienado, sem saber bem quem melhor pode servir os seus interesses.

Trump, o patrão daquilo tudo

Trump vem do mundo autocrático das suas empresas e está convencido que os seus poderes foram confirmados e alargados, sendo agora dono dos EUA. Os decretos que assina, cercado pelo seu crew de fiéis (o estilo lembra a Coreia do Norte), seriam ordens para executar pelos seus capatazes no Congresso, Senado, Tribunais, Polícia, Exército, Serviços Secretos e por aí abaixo.

Alguns juízes nos Tribunais acham que não é bem assim. Não o vêem como dono do país e muito menos como seu chefe. Se os decretos são para cumprir têm de respeitar princípios, regras, trâmites, materiais e formais. Bem, os juízes não querem assinar de cruz e muito menos violar leis fundamentais que foi o que eles juraram cumprir. 

O espectáculo é triste e tem laivos de grande farsa mas não andaram os outros presidentes durante dezenas de anos a ensaiar e a aplanar caminho para este Finale Furioso?

Não funciona a democracia? Mude-se o povo

Ninguém se atreveria a duvidar que os EUA têm a melhor e mais avançada democracia do mundo. O que não admira, é o país com:

– os bancos mais poderosos do mundo,

– os paraísos fiscais mais seguros do mundo,

– as elites financeiras mais cúpidas do mundo,

– o exército mais eficiente do mundo,

– os maiores produtores e exportadores de armamento do mundo,

– os melhores e mais numerosos serviços secretos do mundo,

– os maiores criminosos e as cadeias mais cheias do mundo,

– os melhores filmes e as estrelas mais famosas do mundo,

– as melhores cadeias de televisão com os melhores programas do mundo,

– o jornalismo mais referenciado do mundo,

– o maior número de medalhas olímpicas do mundo,

– o maior número de bases militares instaladas pelo mundo,

– os melhores, mais ilustres e mais conhecidos políticos do mundo…

… até que Donald Trump surgiu, foi eleito e o mundo ficou muito desiludido.

Como pode o país das supremas qualidades, o farol da democracia, da liberdade, do dinheiro, das armas, da espionagem e da guerra, da televisão e do crime real, virtual e fictivo, do cinema e do jornalismo, do divertimento e dos drones, do povo eleito por Deus, inspirado por milhares de gurus comerciais e por centenas de religiões infalíveis, ter escolhido Donald Trump para o representar?

Os melhores do mundo avançaram com as suas convictas explicações: Putin, redes sociais, fake-news, populismo, pós-verdade. Contra tudo e todos está hoje o establishment ocidental, agora comandado pela única estrela que resta no firmamento neocon, a sra. Merkel apoiada pelo sr. Schäuble. Bem, podem contar a NATO,  a agressão „obsoleta“.

Apuradas as culpas e os culpados por certo irão mudar o povo, pois só por sua culpa não funcionou a tão perfeita democracia americana.

Trumpismo como exercício de preguiça mental

O conceito já está de pé mas o seu conteúdo ainda não tem contornos. Fala-se de „trumpismo“ mas o fenómeno ainda é uma coisa difusa e disforme. Não passa de uma amálgama rudimentar de slogans de propaganda eleitoral, desejos lidos nos lábios trémulos de consumidores de reality shows, ameaças fanfarronas de celebridades tristes para consumidores no Facebook. O trumpismo como aí está tem tanta consistência como as sondagens que davam Hillary Clinton, desde o primeiro dia da campanha eleitoral, como a grande presidente dos EUA.

Trump ganhou e o trumpismo foi criado como papão. Um papão encenado por agentes políticos da ordem estabelecida, jornalistas corporativos e activistas das redes sociais. Na falta de ideias precisas e sólidas, o trumpismo é apresentado como uma versão americana do fascismo europeu. Há também quem o veja como uma variante populista, uma forma estragada ou aziumada da democracia. Outros querem ver no trumpismo um movimento post-truth, pós-verdade, onde os factos deixaram de ter qualquer importância, dando lugar a sentimentos, impressões, afectos e instintos. O trumpismo, se algum dia vingar, talvez venha a ter um bocado de tudo, de momento, porém, não passa de um trambolho.

Seja como for, a burguesia financeira não sabe como capitalizar os seus lucros num sistema económico saturado e a ameaçar ruir, pondo em causa os seus interesses e privilégios. Daí recorrer a todos os estratagemas para se manter no poder, iludindo e manipulando as camadas sociais que estão na base da democracia. O trumpismo nesta fase não passa de uma expressão da preguiça mental dos seus agitadores. Talvez fosse mais acertado falar de „Obamismo“, dele sabemos ao menos que foi um fenómeno muito risonho que serviu maravilhosamente o terrorismo e a desestabilização política no mundo.

Um Donald Trump é a figura que no momento melhor se coaduna com a democracia americana

Pergunto-me se não será de homens como este que o mundo está urgentemente a precisar para ficar a conhecer melhor a natureza dos States? O que acho é que os guardiões do Graal, o exército, os serviços secretos e os grandes consórcios, donos de economias e conhecimento, entender-se-ão com ele às mil maravilhas. O candidato tem o agradável dom da pantominice e não é esta a mais destacada e empática faceta da democracia americana? Até quando saqueia reservas petrolíferas e outros recursos naturais, sem olhar a guerras e a terrores, nos leva a ver o crime como algo absolutamente insignificante.