O conhecimento como humilhação e ameaça

Tanto quanto entendi, „as humilhações sofridas pela humanidade“, aqui enumeradas por António Guerreiro, só podem ter sido infligidas pelo conhecimento científico adquirido pelos homens nestes últimos séculos. De humilhação da humanidade pelo seu próprio conhecimento só pode falar quem ficou estagnado numa visão medieval do mundo, recusando qualquer conhecimento fora da vontade divina, esta interpretada e soprada por qualquer agente religioso. Quem põe a questão do conhecimento como humilhação, está de facto a enaltecer a ignorância como suprema elevação. Erguendo a ponta do véu, apercebemo-nos de uma enxaqueca de gente bem instalada.

Porquê levantar a questão do „pós-humano“ com a implantação de um coração artificial e não a levantar para os piratas que usavam um gancho a substituir a mão? Também aquela „antropologia do artificial“ vai na mesma direcção, embora tenha muito que se lhe diga. Fico por aqui: No processo histórico da sua consciencialização o homem não só cria e molda os instrumentos, o tal „artificial“, de acordo com as suas necessidades, como também tem de os usar, apropriar-se deles, para que a sua humanização se realize. Aquela „antropologia do artificial“ é, no fim de contas, a moldagem, a adaptação, dos instrumentos às suas necessidades.

António Guerreiro diz bem quando fala daquela „’barreira metafísica’ que parecia…“ pois, de facto, trata-se de uma parecença, uma aparência, uma ilusão. Essa barreira foi criada pela apropriação privada do trabalho social e consolidada pela alienação religiosa. O homem pela sua natureza sempre foi parte integrante da natureza maior que o rodeia e esta sempre será um seu condicionante, com os outros seres vivos e a própria sociedade a que pertence. Fora dela o homem não tem qualquer futuro, por mais flores de retórica, „“O futuro terá ainda necessidade de nós?”, que a sua imaginação produza.

Gozado é ver a preocupação com a sobrevivência da „democracia“ no embate com as novas tecnologias. Os usufrutuários desta „democracia“ não se cansam de a ver como forma ideal de poder, divinizam-na, idolatram-na. Vêem nas novas tecnologias uma ameaça à sua „democracia“, e assim também, à sua liberdade económica, aos seus hábitos, aos seus privilégios. Falam mesmo de “pós-democracia”. Ai meu Deus, o que nos espera?

O que aí está não passa de uma amostra, mesmo uma ilusão, de democracia. Como pode uma democracia criar tanta desigualdade, pagar tão mal a quem produz, permitir a fuga aos impostos e esconder fortunas colossais em offshores, promover guerras ilegais para sacar riquezas naturais de outros povos, esbanjar fortunas monumentais em armamento obsceno? Os poderosos de um determinada época sempre temeram o progresso, o conhecimento e as novas tecnologias, e os de hoje assustados com as novas tecnologias já falam de „pós-democracia“, de „transdemocracia“, do diabo a quatro. Lembram-se dos seres fantásticos que a Igreja Católica „viu“ na altura, nos mares dos descobrimentos? As suas „verdades“ começavam a ruir, começava a sua „humilhação“ no falar de António Guerreiro.

Coitados! O seu medo só pode ser um bom sinal, o indício de que afinal só nos encontramos numa cis-democracia, uma pré-democracia, no pressentimento do que de facto poderá ser uma democracia, quando todos tiverem acesso ao bem estar que merecem pelo contributo que dão para a sociedade e a humanidade.

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